Reflexões sobre o JEJUM DE NÍNIVE

O JEJUM DE NÍNIVE

No próximo dia 10 de fevereiro as Igrejas Orientais Ortodoxas, mais especificamente a Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia e a Igreja Copta Ortodoxa de Alexandria darão início a um período de abstinência total de três dias, lembrando o Jejum que os ninivitas praticaram muito antes de Cristo.

É preciso entender no contexto histórico-bíblico a importância desta celebração.

Exatamente Jonas, filho de Amati, um dos profetas no Antigo Testamento, é enviado pelo Deus Altíssimo a Nínive para alertar a cidade da sua conduta desregrada e, portanto, deve contrita rogar pelo perdão dos seus pecados.

Segundo alguns estudiosos bíblicos, discute-se ainda o gênero literário do “Livro de Jonas” e alguns destes julgam até tratar-se de uma história fictícia voltada apenas para ensinar aos homens, em especial,ao povo escolhido, isto é, os judeus que Deus governa sobre todas as criaturas, inclusive os homens mesmo quando estes não querem obedecer.

Pois bem, Jonas, ao invés de ir a Nínive, tenta ir a Társis “para fugir da face do Senhor”, diz a Bíblia, e então vem a parte da história que todos conhecemos, Deus manda uma tempestade e os marinheiros lançam a sorte e esta recai sobre Jonas, que é lançado ao mar, engolido por um peixe grande, onde então, Jonas faz uma oração digna de leitura, aliás muito adequada aos nossos dias, mas que aqui não vou repetir – deixo para a curiosidade de cada leitor(a) busca-la na Bíblia, assim terá a oportunidade de usá-la adequadamente e não deixa-la como objeto de decoração na sala de casa.

Ah! Só lembrando, o livro de Jonas no Antigo Testamento é de uma extensão muito grande... duas páginas!

Mas, aí, continuando, Jonas é expelido pelo peixe, dirige-se a Nínive e alerta o rei e toda a população; o rei, então, ordena a todos jejuar e vestirem-se de sacos desde o maior até o menor.

O próprio rei vestiu-se de saco e assentou-se sobre cinzas e ordenou que a abstinência era geral alcançando até os animais e que não se bebesse nem água, devendo todos clamar a Deus por misericórdia e se convertessem do mau caminho e da iniquidade esperando assim alcançar o perdão divino.

Com efeito, Deus os perdoou.

No entanto, Jonas, por seu lado, se angustia, pois, o Deus dos judeus, ou melhor, do povo escolhid, é visto com uma relação de mando imbuída de raiva e de repente Ele perdoa!

Jonas assenta-se contra o Oriente de Nínive, aguardando para ver o que acontece com a cidade. Deus faz nascer uma hera para propiciar uma confortável sombra a Jonas e este adormece com grande alegria.

No dia seguinte um bicho rói as raízes da hera e ela seca, volta então o sol quente e o vento abrasador, Jonas com os raios do sol na cabeça clama – melhor é morrer que viver!

Deus questiona Jonas porque se irrita por amor a hera que secou e na qual nenhum trabalho seu envolveu, a hera nasceu numa noite e morreu a noite seguinte e Deus por sua vez não perdoaria uma cidade de mais de 120 mil homens?

Jonas apresenta nesta história um espírito mesquinho nacionalista, pois, crê ser seu Deus um Deus tribal, um Deus exclusivo do seu povo, por isso toma o caminho oposto da ordem divina.

Quantas vezes os nossos preconceitos e o respeito humano têm nos levado a imitar este mau exemplo de Jonas desobedecendo às ordens claras de Deus.

Calculam os historiadores que a cidade de Nínive, capital do Império Assírio, tinha uma população estimada entre 200 e 250 ml habitantes.

A essência da história é para mostrar a existência do culto monoteísta não só ao tempo de Abraão, a quem Deus prometeu uma grande prole e uma terra da qual jorraria leite e mel, mas, já àquele tempo Abraão cruzou com o rei Melquisedec, que oferecia pão e vinho ao Deus Altíssimo.

Quando o rei de Nínive em ato de contrição jejua, veste se de saco e se assenta sobre cinzas, humilha-se justamente diante deste mesmo Deus Altíssimo e alcança o perdão. É este monoteísmo justamente que abraça de imediato o Cristianismo no ato do rei Abgar de Edessa com o Cristo ainda em vida.

Acontece que o ato de contrição é o reconhecimento da força criadora que chamamos de Deus, e traz em si uma sofisticada e desafiadora verdade ao homem moderno seguro de si, mas em verdade alienado e reduzido a um status egoísta de busca da perfeição e da felicidade nas coisas materiais.

É justamente este Deus que se humilha e se encarna da Virgem Maria, olhando Ele próprio do ponto de vista do ser humano; portanto, podemos dizer que a Essência do Universo, o Verbo, materializa-se incorrendo na própria criação e já compreendendo os anseios da sua criação, dedica-se a salvação desta mesma humanidade reconduzindo-a ao caminho da luz e da verdade.

A abstinência de três dias nestas duas Igrejas é que se tem a ideia do conhecimento e da interação profunda de Deus com a humanidade.

Não nos deixemos levar pela superficialidade dos fatos ou histórias, é preciso entender que a misericórdia e piedade divina são realidades não só espirituais ou negociáveis, como em certas "igrejas", mas a verdadeira graça ao alcance de todos os corações abertos ao amor recíproco entre os homens e Deus e dos homens entre si.

Neste período de reflexão que se inicia às dezoito horas do próximo domingo e segue até a Missa matutina da quarta feira, teste sua vontade e sua capacidade de autodomínio, afasta-te das coisas materiais e busca na sua agenda diária três momentos para a alimentação espiritual, leia a história de Jonas, faça um passeio pelos Salmos, visite o Sermão da Montanha, reconsidere suas ações e tenta avaliar seus atos junto a seus irmãos de Criação, seus familiares, seus vizinhos, seus amigos, seus colegas de trabalho e até daqueles mais distantes pelos quais não guardas grande estima, pensa e ajuda os necessitados, ouve os aflitos e até mesmo aqueles que partiram merecem sua oração, então prepara-te para o grande encontro na quarta-feira próxima com a Graça do Criador, comunga e sinta a alegria e o prazer de compartilhar a grande ceia do Senhor.

Lembrando sempre que tudo deve ser feito com humildade e sabedoria!

A história de Jonas justamente em Nínive, a maior cidade da antiguidade, aliás da antiguidade mais distante, é a mesma história de São Paulo ou Nova York, Londres ou Paris, compare!

A singela história, inaceitável para os nossos padrões culturais – como pode um peixe engolir um homem inteiro e depois expeli-lo sem danos físico?

Caros amigos,

A religião não é a auto alienação da humanidade como querem muitos pensadores e principalmente os marxistas de carteirinha.

O verdadeiro cristão não se refere ao Cristo só com relação aos seus talentos como a cura ou mesmo do seu ponto de vista moral, se assim proceder ignora a verdade absoluta, por isso não compara Jesus a Buda, Sócrates, Moisés ou mesmo Maomé, Jesus Cristo para o verdadeiro Cristão é o próprio Deus, divino no sentido de total ausência de qualquer falha humana

Cristo é singular, puro, perfeito, universal, Cristo não é herói, sua encarnação não é acidental, é por vontade própria justamente para encarar a dispensação divina a que se propôs.

A abstinência neste ponto se faz necessária para que afastados do meio material básico possamos enxergar com os olhos do coração a grandeza da Criação e do Criador.

Aniss Ibrahim Sowmy, diácono evangelista