São João Crisóstomos - comentário à Carta aos Efésios



        Éfeso é uma metrópole da Ásia. Era dedicada a Diana, ali cultuada como a principal divindade. A superstição dos habitantes era tamanha que nem divulgaram o nome daquele que queimara o templo da deusa, o qual, efetivamente, foi incendiado. São João Evangelista morou durante muito tempo em Éfeso, pois, relegado, ali morreu. Paulo também ali deixou Timóteo, conforme lhe escreveu: “Eu te recomendei permanecer em Éfeso” (1Tm 1,3). E muitos dos filósofos que floresceram na Ásia eram oriundos desta cidade. Com efeito, diz-se que Pitágoras era natural de lá, pois Samos, onde nascera, é ilha Jônica. São ainda de Éfeso Parmênides, Zenão, Demócrito e agora encontramos ali ainda muitos outros filósofos. Não é sem motivo que o relembramos, e sim no intuito de sublinhar o grande esforço de Paulo para escrever-lhes. Conta-se, porém, que se confiava terem eles senso mais profundo, porque já eram catecúmenos. A epístola está cheia de sentenças e doutrinas sublimes. Paulo a escreveu quando cativo em Roma, conforme ele próprio declara: “Orai também por mim, para que, ao abrir os meus lábios, me seja dada a palavra para anunciar com ousadia o mistério do evangelho, do qual sou o embaixador em cadeias” (Ef 6,19-20). E está repleta de pensamentos elevados e superlativos. De fato, enuncia o que raramente exprimiu, tal como: “Para dar agora a conhecer aos Principados e às Potestades nas regiões celestes, por meio da Igreja, a multiforme sabedoria de Deus”; e ainda: “E com ele nos ressuscitou e nos fez assentar nos céus”; e: “Às gerações passadas ele não foi dado a conhecer, como foi agora revelado aos seus santos, apóstolos e profetas, no Espírito: os gentios são co-herdeiros, membros do mesmo Corpo e co-participantes da herança em Cristo” (Ef 3,10; 2,6; 3,5-6).


“Com toda sorte de bênçãos espirituais”. Ainda te falta alguma coisa? Tu te tornaste imortal, livre, filho, justo, irmão, coerdeiro. Simultaneamente reinas, conjuntamente serás glorificado. Deu-te tudo grátis. “Como não nos haverá de agraciar em tudo com ele?” (Rm 8,32).

        Com efeito, os possuidores de bens materiais não podem ouvir falar de bens espirituais e os detentores dos espirituais não poderão consegui-los a não ser que primeiro renunciem aos materiais.

“Nele ele nos escolheu antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis diante dele.” É o seguinte o que afirma: Escolheu-nos por intermédio daquele mesmo por quem nos abençoou. Ele, portanto, nos dará todas as coisas.

        Em quase todas as epístolas Paulo esforça-se por mostrar que as determinações não são recentes, mas outrora já haviam sido expressas. Não, contudo, que Deus tenha alterado o desígnio, mas atesta a Providência ter sido assim planejado e previamente definido. O que significa: “Nele nos escolheu”? Cristo o realizou perfeitamente, pela fé em si, antes que existíssemos, ou melhor, antes que o mundo fosse fundado. E usou com justeza a expressão: “fundação”, como se de grande altura tivesse sido projetado abaixo. É grande e indescritível a elevação de Deus, não local, mas pela natureza sublime e imensa distância entre a criatura e o Criador. Ouçam envergonhados os hereges. Com que finalidade escolheu? “Para sermos santos e irrepreensíveis diante dele”. No intuito de evitar que, ao ouvires falar de escolha, julgues bastar apenas a fé, acrescentou a vida. Diz ele: Escolheu-nos também e sobretudo “para sermos santos e irrepreensíveis”. Escolheu outrora os judeus. De que maneira? Escolheu este povo entre as nações (cf. Dt 7,6; 14,2). Se, pois, os eleitores procuram escolher o que há de melhor, muito mais Deus.

        Ser eleito é sinal do amor de Deus aos homens e da virtude destes. Na verdade, Deus escolheu homens de bem e os fez santos, mas importa que permaneçam santos. O santo é participante da fé, imaculado, de vida irrepreensível. Deus, porém, não exige santidade, perfeição simplesmente, mas que tais nos apresentemos em sua presença. Existem pessoas que os homens consideram santos e irrepreensíveis, mas assemelham-se a sepulcros caiados, e possuem somente peles de ovelhas. Não são estes os que Deus procura, e sim aqueles dos quais diz o profeta: “Segundo a pureza de minhas mãos” (Sl 18,25). Qual, portanto? Ele busca a santidade perante seus olhos, aquela que os olhos de Deus contemplam. Tendo enunciado os atos bons que praticaram, remonta à graça: No amor.

        Não se realizaram por meio de esforços e de boas obras, mas pelo amor. Nem só pelo amor, mas ainda por nossa virtude. Pois, se fosse somente pelo amor, todos deveriam ser salvos. Se, porém, só por nossa virtude, seria supérflua sua vinda e tudo o que aconteceu segundo o plano divino. Por conseguinte, não foi somente pelo amor, nem por nossa virtude, mas por ambos. “Escolheu-nos.” Quem escolhe, sabe a razão por que escolhe. “No amor. Ele nos predestinou.” A virtude a ninguém salvará sem o amor. Dize-me. O que adiantaria a Paulo, e o que teria realizado, se o Amado não o chamasse do alto e o atraísse a si? Aliás, é efeito da caridade ter se dignado a tanto, não de nossa virtude. É proveniente daquele que chamou, a existência de homens virtuosos que acreditaram e aderiram, mas origina-se também de nós. Depois que aderimos, dignou-se honrar-nos tanto que imediatamente nos transferiu da inimizade à adoção de filhos, por excessiva caridade.

“Para louvor da glória.” O que significa? A fim de que alguém o louve? Que o glorifique? Nós, os anjos, os arcanjos? Toda a criação? E com que finalidade? Nenhuma. Deus de nada precisa. Por que, então, quer que o louvemos e glorifiquemos? Para que nosso amor para com ele seja mais ardoroso. De nós nada mais deseja do que nossa salvação. Não o nosso serviço, nem a glória, nem qualquer outra coisa, e faz tudo por nossa salvação.

“Com a qual ele nos agraciou”, afirma. Não disse: Deu gratuitamente, e sim: Fez-nos agradáveis. Isto é, não apenas nos libertou dos pecados, mas também nos fez agradáveis. Seria como se alguém tomasse um sarnento, condenado pela peste, doença, velhice, pobreza e fome, e imediatamente o transformasse em jovem formoso, que superasse a todos pela beleza, emitisse do rosto grande esplendor e os olhos brilhassem com raios a ocultarem o fulgor do sol; em seguida, o estabelecesse na flor da idade, o revestisse da púrpura, impusesse-lhe o diadema e o decorasse com todo ornato real; assim muniu e ornou nossa alma e a fez bela, desejável e amável. Os anjos desejam olhar tal alma, e igualmente os Arcanjos e todas as outras Virtudes, de tal modo nos fez graciosos e amáveis a si. “De tua beleza se encantará o rei” (Sl 45,12). Vê, portanto; quantas palavras péssimas falávamos, tantas proferimos agora cheias de graça. Não mais admiramos as riquezas, nem as realidades terrenas, mas as celestes, as que há no céu. Por acaso, não dizemos que um menino é gracioso quando unida à beleza corporal, possui também muita graça nas palavras? Tais são os fiéis. Observa o que falam os iniciados nos mistérios. O que há de mais gracioso do que aquela boca que emite palavras admiráveis e com o coração puro e lábios purificados é participante de tal mesa mística, com muito esplendor e confiança? O que há de mais gracioso do que as palavras, pelas quais renunciamos ao diabo? Que nos inscrevem no número dos soldados de Cristo? Aquela confissão antes do batismo e a posterior? Pensemos quantos de nós perderam o batismo e gemamos para que possamos recebê-lo.

Quando desconhecias a Deus, eras inimigo dele, merecias alguma desculpa; mas depois que provaste sua bondade e o mel, se abandonando-os voltares ao vômito, nada mais manifestas do que sinais de ódio e de desprezo. Não, replicas, mas a natureza me obriga. Amo a Cristo, na verdade, mas sou forçado pela natureza. Se suportas necessidade e coação, receberás perdão; se, porém, for por preguiça e negligência, de modo algum.

Vamos, pois, examinemos o assunto. Os pecados são cometidos por necessidade e violência, ou por muita covardia e negligência? “Não matarás” (Ex 20,15), diz a Escritura. Qual é, pois, a necessidade? Que violência obriga a isso? Por conseguinte, matas por violência. Quem, pois, escolhe livremente enterrar a espada na garganta do próximo, e ensanguentar sua direita? Ninguém. Vês que é o contrário de pecar por necessidade e violência? Deus inseriu em nossa natureza o amor recíproco. “Todo ser vivo ama o seu semelhante, e todo homem, o seu próximo” (Eclo 13,18). Vês que temos sementes naturais para a virtude? O vício é contra a natureza; se os vícios dominam, é sinal de nossa grande indolência. Como? Que necessidade nos leva ao adultério? Sim, replicas, a tirania da concupiscência. Por quê? Dize-me, por favor. Não é lícito unir-te a tua esposa, e acalmar a tirania? Mas estou aprisionado, responde, pelo amor à mulher do próximo. Não é forçoso; o amor não é obrigatório. Ninguém ama por necessidade, mas por espontânea e livre escolha. Talvez a necessidade impila à cópula; mas que ames esta ou aquela não é necessário. Nem é concupiscência, mas vanglória e injúria, excesso de delícias. De fato, o que é mais razoável ter a esposa, companheira na procriação dos filhos, ou uma desconhecida? Não sabes que os costumes geram as amizades? Por conseguinte, não é natural. Não acuses a concupiscência. Ela foi dada para o matrimônio, para a procriação dos filhos, não para o adultério, nem o estupro. As leis reconhecem o pecado que se comete por necessidade, ou antes, não há pecado necessário, mas todos por injúria. Deus não criou natureza que peque por necessidade; aliás, se fosse assim, não haveria castigo. Não pedimos conta do que se faz por necessidade e violência, e principalmente nem Deus, tão amoroso e bom. Mas que necessidade há de roubar? Sim, replicas; a pobreza obriga a isso. Ao invés, a pobreza obriga a trabalhar, não a roubar. A pobreza, portanto, faz o contrário. Roubar provém do ócio; a pobreza não costuma gerar o ócio, mas o amor ao trabalho. O roubo, portanto, vem da preguiça. Aprenda o seguinte. Dize-me. O que é mais difícil, mais desagradável? Passar as noites acordado, perfurar as paredes, andar nas trevas, ter a alma nas mãos, estar propenso ao assassinato, tremer e morrer de medo, ou entregar-se diariamente aos trabalhos e estar garantido em segurança? Isso é fácil e por ser fácil, em maior número faz-se isto de preferência àquilo.

Vês que a virtude é, realmente, segundo a natureza e o vício contra a natureza, à semelhança do que sucede entre a doença e a saúde? E quanto a mentir e jurar, que necessidade há? Nenhuma, nem violência, contudo, de bom grado chegamos a isso. Não se acredita em nós, retrucas. Não temos crédito, porque queremos; podíamos ter maior crédito por nossa atitude do que pelos juramentos. Por que, dize-me, não acreditamos em alguns mesmo que jurem; a outros, porém, mesmo sem jurarem, consideramos fidedignos? Vês que de forma alguma o juramento é necessário? Se aquele fala, acredito mesmo sem juramento; em ti, porém, nem se jurares. Por conseguinte, o juramento é supérfluo e é mais prova de incredulidade do que de fé. Ser propenso ao juramento impede a boa fama de piedade.

A ira comove e inflama, e não deixa o ânimo estar quieto e tranquilo. Infligir injúria, ó homem, não vem da ira, mas da pusilanimidade. Se fosse proveniente da ira, todos os homens que se encolerizam não deixariam de infligir ultrages. Nós nos encolerizamos, não para injuriarmos o próximo, mas para convertermos os pecadores, excitá-los, para não sermos covardes. Temos a ira como certo estímulo para rangermos os dentes contra o diabo, para sermos fortes contra ele, e não para nos opormos uns dos outros. Temos armas, não para guerrearmos mutuamente, mas para usarmos a armadura contra o inimigo. És irascível? Deves sê-lo contra teus pecados. Censura a alma, flagela a consciência. Sê juiz severo e acerbo árbitro contra teus pecados. Este é o lucro da ira. Foi para isso que Deus em nós a inseriu.

“... o Pai da glória, vos dê um espírito de sabedoria e de revelação, para poderdes realmente conhecê-lo.”

Vos dê, isto é, eleve vossa mente e lhe forneça asas. Não é possível aprender estas coisas de outro modo. “O homem psíquico não aceita o que vem do Espírito. É loucura para ele” (1Cor 2,14). Precisamos de uma sabedoria espiritual para entendermos as realidades espirituais, desvendarmos as ocultas. “O Espírito sonda todas as coisas, até mesmo as profundezas de Deus” (1Cor 2,10). Somente o Espírito, que perscruta até as profundezas, conhece os mistérios. Nem anjo, nem arcanjo, nem qualquer poder criado vos concede, oferece os carismas. Se vem da revelação, é supérfluo o que descobre a razão. Pois quem possui correto conhecimento de Deus não terá mais dúvidas a tal respeito. Não dirá: Isto é impossível, aquilo é possível? E: Como tal coisa ocorreu? Se aprendemos quem é Deus, conforme devemos, se formos instruídos por aquele a quem compete, a saber, pelo próprio Espírito, não mais duvidaremos de coisa alguma. Por isso diz Paulo: “Para poderdes realmente conhecê-lo, que ele ilumine os olhos de vossos corações”. Quem souber o que é Deus, não duvidará de suas promessas, não será incrédulo acerca do que já aconteceu. Suplica lhe seja dado um “espírito de sabedoria e revelação”. De resto, ele próprio confirma por meio de possíveis raciocínios e dos eventos passados. Estando para mencionar tanto fatos já realizados quanto outros que ainda não haviam sucedido, dá crédito a estes através daqueles que já aconteceram. Um exemplo acerca da palavra: “Para saberdes qual é a esperança que o seu chamado encerra”. É obscuro o que afirma, mas não para os fiéis. “Qual é a riqueza da glória da sua herança entre os santos”. Também não é manifesto. Mas, o que já é manifesto? Acreditarmos que ele por seu poder ressuscitou a Cristo.

Viste “a riqueza da glória da sua herança”? Viste “a extraordinária grandeza de seu poder para” aqueles que creem? Viste “qual a esperança que o seu chamado encerra”? Respeitemos nossa Cabeça! Reflitamos de que Cabeça somos o corpo, e que todas as coisas lhe estão sujeitas. Segundo este exemplo devíamos ser melhores até do que os anjos, maiores do que os arcanjos, porque colocados acima deles todos. Deus “não veio ocupar-se com os anjos, mas, sim, com os filhos de Abraão” (Hb 2,16), conforme escrito na Epístola aos Hebreus. Não assumiu a natureza dos Principados, nem das Potestades, nem das Dominações, mas a nossa e ordenou-lhe que se sentasse nas alturas do céu. E por que digo que ordenou que o Filho sentasse? Revestiu-o, e não só isto, mas tudo sujeitou sob seus pés. Quantos mortos ou vivos calculas? Milhares e múltiplos? Mas nada dirás que se lhe equipare. Duas graças máximas: Desceu ele próprio à última humilhação, e elevou o homem à maior altura.

Veneremos esta afinidade, tenhamos receio de que alguém seja amputado deste corpo, caia, mostre-se indigno. Se alguém impusesse em nossa cabeça um diadema, uma coroa de ouro, não faríamos o possível para nos mostrarmos dignos destas pedras inanimadas? Entretanto, não é imposto em nossa cabeça um diadema, mas Cristo se fez nossa Cabeça, o que é mais importante, sem que nada fizéssemos. Na verdade, reverenciam-no os anjos, arcanjos e todas as outras virtudes; nós, porém, que somos seu corpo, não o reverenciaremos por isso, ou por outra causa? E que esperança nos restaria de salvação?

Se alguém prender os pés do rei com cadeias e grilhões, não será réu extremo suplício? Tu jogas o corpo inteiro às feras cruéis, e não estremeces? Mas pelo fato de se tratar do corpo do Senhor, vamos, recordemos que ele foi crucificado, atravessado pelos cravos, e imolado. És corpo. Sê corpo de Cristo, carrega a cruz porque ele também a carregou; suporta os escarros, as bofetadas, os pregos. Tanto suportou aquele corpo inocente: “Se bem que não tivesse praticado injustiça alguma, nem tivesse havido mentira em sua boca” (Is 53,9). Suas mãos atuavam em benefício de todos os necessitados. De sua boca nada saiu de inconveniente.
Uma vez que tratamos de um corpo, todos nós que recebemos o corpo e provamos do sangue pensemos que somos partícipes daquele que em nada difere e se distingue do que reina no céu, é adorado pelos anjos, bem próximo da incorrupta Virtude. Ai de mim! Quantos caminhos abertos para a salvação! Ele de nós fez seu corpo, nos distribui seu Corpo, e nada disso nos afasta do mal. Ó trevas, ó abismo profundo, ó insensibilidade! “Pensai nas coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus” (Cl 3,2.1). Apesar disto, uns têm solicitude pelas riquezas, outros são escravos das paixões.

Verifiquei que muitos recebem o Corpo de Cristo simples e fortuitamente, mais por costume e pelo preceito do que por deliberação e reflexão. Ao chegar o tempo da santa Quaresma, ou o dia da Epifania, qualquer um, seja quem for, participa dos mistérios. Ora, não é o tempo que proporciona acesso; não é a Epifania, nem a Quaresma que torna dignos de se aproximarem da mesa, mas a sinceridade e pureza da alma. Aproximate sempre com estas disposições; jamais delas desprovidos. “Pois todas as vezes que o fazeis, anunciais a morte do Senhor” (1Cor 11,26), isto é, agi em memória de vossa salvação, de meu benéfico dom. Pondera quanta abstinência empregavam os participantes do sacrifício do Antigo Testamento. O que não praticavam? O que não faziam? Sempre se purificavam. Tu, porém, aproximas-te do sacrifício que faz tremer os próprios anjos, limitando-o a dependente de períodos de tempo? E como comparecerás ao tribunal de Cristo, tu que ousas aceder com mãos e lábios manchados ao Corpo de Cristo? Não osculas o rei com mau hálito; osculas o rei do céu com a alma fétida? Que afronta!

Reflete, por favor. Eis a mesa real, os anjos que servem, a presença do próprio Rei, e tu estás bocejando? Tuas vestes estão sujas, e não te importas? Mas, se estão limpas? Põe-te à mesa, e participa. O rei vem cada dia para ver os que estão à mesa, conversa com todos; e agora dirige-se à tua consciência: “Amigo, como entraste aqui sem roupa nupcial?” (Mt 22,12). Seria possível dizer coisas mais terríveis, mas para não pesar em vossos espíritos, basta! De fato, quem ainda não obteve bom senso, não o alcançará com mais palavras.

Não podemos desculpar-nos de fraqueza, nem culpar a natureza. Somente a indolência nos faz indignos. Foi o que dissemos. Aquele, contudo, que dá aos corações contrição, espírito de compunção, conceda arrependimento a vossos corações, e insira no íntimo o sêmen a fim de poderdes conceber pelo temor de Deus e dar à luz o espírito de salvação e aproximar-vos com confiança. Diz a Escritura: “Teus filhos, rebentos de oliveira, ao redor de tua mesa” (Sl 128,3). Nada, portanto, de velho, de cruel, de áspero. Tais rebentos são aptos a produzir fruto, fruto admirável, fruto de oliveiras, diria. Frutos fortes, todos ao redor da mesa. Não se reúnam em vão e ao acaso, mas com temor e tremor. Assim, pois, ali havereis de contemplar a Cristo com toda confiança, e vos tornareis dignos do reino celeste. Consigamo-lo nós todos, pela graça e amor aos homens de nosso Senhor Jesus Cristo, ao qual, com o Pai, na unidade do Espírito Santo glória, império, honra, agora e sempre e nos séculos dos séculos. Amém.

Observa, portanto, que Paulo, tendo já demonstrado que é grande problema e mais importante curar a alma atingida pela morte do que ressuscitar os mortos, agora também o apresenta como de maior valia: “Vós estáveis mortos em vossos delitos e pecados. Neles vivíeis outrora, conforme a índole deste mundo, conforme o Príncipe do poder do ar, o espírito que agora opera nos filhos da desobediência”. Notas a mansidão de Paulo, e como sempre consola o ouvinte, sem onerá-lo? Com efeito, tendo dito que eles haviam chegado ao extremo vício (é este o significado de estar mortos), a fim de não os atingir assaz (porque os homens se envergonham se os pecados anteriores são divulgados, embora já perdoados e não apresentem perigo algum), dá-lhes um auxiliar, um auxiliar forte, para não julgarem que tudo lhes seria imputado. Qual? O diabo. Assim também procede na Epístola aos Coríntios.

Nesse ponto os hereges disputam com vigor que o dito se refere a Deus. Com língua desenfreada, aplicam a Deus o que é somente do diabo. Como lhes taparemos a boca? Por suas próprias palavras. Pois se Deus é justo, conforme afirmais, mas assim procedeu, não é peculiar a um justo, e sim a alguém muito injusto e criminoso. Deus, porém, jamais pôde ser criminoso. Por que o Apóstolo o chama de Príncipe deste mundo? Porque quase toda a natureza humana se entregou a ele, e todos o servem espontânea, voluntariamente. A Cristo, que promete inumeráveis bens, ninguém se apresenta; a ele que nada promete, mas arrasta à geena, todos se submetem. E embora seu principado seja apenas neste século, ele aqui tem mais súditos do que Deus, e a eles se submetem pela própria indolência mais do que a Deus, com poucas excessões. “Conforme o Príncipe do poder do ar.” Afirma isso porque seu lugar é abaixo do céu, e espíritos do ar são as Potestades incorpóreas; e ele “agora opera”. Ouvi como Paulo assegura no fim da Epístola que seu principado é deste século, isto é, que há de perdê-lo com o presente século: “O nosso combate não é contra o sangue nem contra a carne, mas contra os Principados, contra as Potestades, contra os Dominadores deste mundo de trevas” (Ef 6,12). De fato, visando a que, ao ouvires a locução: “Dominadores deste mundo”, não afirmes que ele é incriado, formulou: “Deste mundo de trevas”. Em outra passagem igualmente chama o mundo malvado de “mundo mau” (Gl 1,4), mas sem referência às criaturas. A meu ver, ele que era príncipe sob o céu, não perdeu o principado, mesmo após a transgressão. “Que agora opera nos filhos da desobediência.” Vês que não emprega a violência, nem a tirania, mas a persuasão? Usou o termo apeitheia, de certo modo querendo dizer: Atrai a todos pela decepção e persuasão. Consola-os não apenas dando-lhes um companheiro, mas colocando-se entre eles.

Fomos criados do nada para existirmos. Morremos para o que éramos, o homem velho. Transformamo-nos no que não éramos antes. Por conseguinte, há criação e a recente é melhor do que a primeira. Por meio desta última, de fato, vivemos; por meio da atual, porém, vivemos bem. “Para as boas obras que Deus já antes tinha preparado para que nelas andássemos”. Não: A fim de começarmos, e sim: “Para que andássemos”. Precisamos de contínua virtude, duradoura até a morte. Com efeito, ingressássemos no caminho que conduz à cidade régia, e após termos vencido a maior parte, próximos do fim, nos sentássemos indolentes, de nada nos serviria a caminhada. Assim nada nos aproveitaria ter possuído “a esperança que seu chamado encerra”, se não andássemos de forma digna de quem chamava. Chamados, pois, às boas obras, perseveremos, praticando-as todas. Para tal fim fomos chamados. Não para praticarmos apenas uma obra, mas todas. Temos cinco sentidos, e devemos utilizá-los todos no que lhes é peculiar; o mesmo acontece com as virtudes. Se alguém é casto mas sem misericórdia, ou de fato misericordioso mas ambicioso, ou se abstém de roubar o alheio mas não dá do que possui, tudo em vão. Não basta uma só virtude para comparecermos com confiança no tribunal de Cristo, mas são necessárias muitas, variadas e de toda espécie. Ouve a palavra de Cristo aos discípulos: “Ide, portanto, e fazei que todas as nações se tornem discípulos, ensinando-as a observar tudo quanto vos ordenei”; e ainda: “Aquele que violar um só destes menores mandamentos, será chamado o menor no reino dos céus” (Mt 28,19; 5,19), isto é, por ocasião da ressurreição. Não entrará no reino. Costuma-se dar o nome de reino à época da ressurreição. “Aquele que violar um só destes menores mandamentos, será chamado o menor”. Por conseguinte, todos são necessários.

Vê, porém, como não é lícito entrar no reino sem a esmola; se somente ela faltar, iremos para o fogo. “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno preparado para o diabo e para os seus anjos”. Por que, qual o motivo? “Porque tive fome e não me destes de comer. Tive sede e não me destes de beber” (Mt 25,41-42). Viste que não foram acusados de mais nada, e só por causa disso pereceram? E aquelas virgens somente por isso foram excluídas da sala nupcial, embora observassem a castidade; mas porque desprovidas da esmola, não entraram com o esposo. “Procurai a paz com todos, e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hb 12,14). Pensa, portanto, que sem a castidade não é possível ver a Deus. Mas, somente com a castidade não pode ser visto, porque muitas vezes existe outro impedimento. Se fizermos tudo bem-feito, mas em nada formos útil ao próximo, não entraremos no reino (cf. Tg 2,10). De onde consta? Dos servos aos quais foram confiados os talentos (Mt 25). A sua virtude era autêntica, sem omissão de virtude alguma. O servo, preguiçoso em negociar, porém, com justiça foi rejeitado. É possível cair na geena somente por um ultraje, uma vez que: “Aquele que chamar a seu irmão: ‘Louco’ terá de responder ao julgamento da geena de fogo” (Mt 5,22). Mesmo que tenha agido sempre corretamente, se for injuriador, não entrará no reino. Não se acuse de crueldade a Deus por excluir do reino dos céus os que assim falharam. Entre os homens, quem agir contra as leis, mesmo se houver transgredido somente uma das leis estabelecidas, é banido da presença do rei: se faz acusação caluniosa, perde o múnus; é tido por indigno se houver cometido adultério; apesar de ter praticado inúmeros atos bons, nada ganha; é suficiente também para perdê-lo se for comprovado que cometeu assassinato. Se as leis humanas são observadas tão exatamente, quanto mais as leis de Deus! Mas, replica-se, Deus é bom. Até quando diremos estas estultices? Declarei ser estultice. Não o fiz porque Deus não seja bom, mas por estimarmos que sua bondade nos permita tais ações. Frequentemente dissertamos a este respeito. Escuta, pois, os dizeres da Escritura: “Não digas: ‘Sua misericórdia é grande para perdoar meus inúmeros pecados’” (Eclo 5,6). Paulo não proíbe que afirmemos serem muitas as suas misericórdias. De forma alguma. Não nos convence disto, mas até quer que assiduamente o declaremos, e para tal movimenta todos os recursos. A causa é a seguinte: Não admires a misericórdia de Deus a fim de pecares, e dizeres: “É misericordioso, perdoa meus inúmeros pecados”. Não dissertamos tanto a respeito da bondade divina para que, nela fiados, caiamos no pecado; do contrário, a bondade ocasionaria perda da salvação. Visamos evitar o desespero por causa dos nossos pecados, e nos penitenciarmos. A benignidade de Deus te induz à penitência, e não a aumentar os vícios. Se te fizeres malvado devido à benignidade divina, antes a condenas diante dos homens. Vejo muitos a acusarem a longanimidade de Deus. Serás castigado se não a aproveitares conforme deves. Deus é benigno? Mas é também justo juiz. Perdoa os pecados? Entretanto dá a cada um segundo suas obras. Supera as iniquidades e apaga os pecados? Mas também os inspeciona. Acaso não são coisas contraditórias? Não são opostas, se as distribuirmos segundo o tempo. Ele apaga os pecados aqui pelo batismo e pela penitência; castiga os maus atos no além pelo fogo e os tormentos. Se, portanto, replicas, eu perpetrar poucos pecados e por um só for excluído do reino, por que não hei de cometer todos os pecados possíveis? Palavras de um servo ingrato! Entretanto vamos retorquir. Não pratiques o mal buscando teu proveito. Todos nós pecadores de igual forma perderemos o reino; na geena, contudo, não sofreremos os mesmos castigos, mas um será submetido a penas menos severas, outros a maiores. Se tu e ele desprezares os preceitos, quem peca muito ou pouco perde o reino; se, porém, não desprezares de igual modo, mas um mais; outros, menos, haverá diferenças na geena. Por que, então, perguntas, o Senhor ameaça de se lançar no fogo os que não tiveram misericórdia, e não simplesmente no fogo, e sim no que foi preparado para o diabo e seus anjos? Por que, e qual o motivo? Porque nada irrita tanto a Deus quanto a lesão infligida aos amigos. Pois se devemos amar os inimigos, que suplício não merecerá aquele que tem ódio até ao amigo, e, por conseguinte, é pior do que os gentios? É justo que, devido à gravidade deste pecado, se aparte em companhia do diabo.

Não nos deleitemos em vão nem nos consolemos com tais palavras, mas atentamente cuidemos de nossa salvação, solícitos na prática da virtude, estimulando-nos à observância do bem para sermos dignos de alcançar tão grande glória, em Cristo Jesus nosso Senhor.

Muitos eventos revelam-nos a bondade e o amor de Deus. Em primeiro lugar, ele próprio salvou-nos e de modo tão excelente; em segundo lugar, salvou-nos embora fôssemos tais quais éramos; em terceiro, aonde nos conduziu. Por si sós estes eventos são indicação máxima de sua benignidade. E Paulo agora revolve o assunto por escrito. Assegurou que Deus nos salvou quando estávamos mortos pelos pecados e éramos filhos da ira; agora declara a quem nos igualou, e por isso diz: “Lembrai-vos”. Todos nós, ao sermos transferidos de uma condição humilde à oposta, ou, de outro lado, ao sermos elevados à honra maior, costumamos esquecer-nos do estado anterior, apoiados em nossa exaltação. Paulo diz em consequência: “Por isso, lembrai-vos”. “Por isso.” Por que razão? Por termos sido criados a fim de praticarmos boas obras. É suficiente para persuadir-nos acerca da solicitude em praticar a virtude. “Lembrai-vos.” Basta esta recordação para nos tornar gratos ao benfeitor.

Alguns asseguram que a Lei é o muro de separação entre os judeus e os gentios. Aludiu à Lei, dizem eles, que não permitia que os dois se misturassem. Não sou deste parecer. O Apóstolo chama de “muro de separação” à “inimizade na carne”, que a ambos os povos aparta de Deus, conforme declara o profeta: “Antes são as vossas iniquidades que criaram um abismo entre mim e vós” (Is 59,2). E com razão. As inimizades constituíam muro de separação tanto para os judeus quanto para os gentios. E como havia a Lei, não somente não as eliminava, mas até as acrescia: “A Lei produz a ira” (Rm 4,15). Ao dizer: “A Lei produz a ira”, não lhe atribui tudo, mas subentende: porque nós transgredimos; assim aqui também a denomina muro de separação, porque não sendo obedecida, criava inimizades. A Lei era uma sebe; visava dar-lhes segurança, e tinha o nome de sebe porque cercava. Ouve, ainda o profeta dizer: “Cercou-a de uma sebe” (Is 5,2); e ainda: “Por que lhe derrubaste as cercas, para que os viandantes a vindimem?” (Is 80,13). Serve também de proteção. E ainda: “Arrancarei a sua cerca para que seja pisada” (Is 5,5); mais uma vez: “Deu a Lei como auxílio” (cf. Is 8,20).

Compete aos mestres instruir e orientar os espíritos dos discípulos, não apenas aconselhando e corrigindo, mas também atemorizando e entregando a Deus. Com efeito, visto que as palavras dos homens, enquanto colegas de serviço, não basta para comover a alma, é preciso entregar ao Senhor o restante. Eis o que Paulo faz aqui. De fato, havendo dissertado a respeito da humildade e da unidade, e que não deve um exaltar-se contra outro, escuta como se exprime: “Isto, portanto, digo e no Senhor testifico. Não andeis mais como andam os gentios”. Não disse: Não andeis mais como andastes, porque seria expressão ferina, mas deu a entender, apresentando exemplo de outros. Assim procedia ao escrever aos tessalonicenses: “Sem se deixar levar pelas paixões, como os demais gentios” (1Ts 4,5). Discordais de suas opiniões. Mas isso vem totalmente de Deus. Eu, porém, reclamo o que deveis prestar: a vida e um comportamento digno de Deus; é vosso dever.

Aprender de Cristo, isto é, viver retamente. Quem, portanto, vive mal, ignora a Deus e por ele é ignorado. Escuta-o em outra passagem: “Afirmam conhecer a Deus, mas negam-no com os seus atos” (Tt 1,16). “Como é a verdade em Cristo Jesus, nele fostes ensinados a remover o vosso modo de vida anterior – o homem velho.” Isto é, não foi sob estas condições que travastes o pacto. Pois o que é nosso não é vaidade, mas verdade; a vida é tão verdadeira quanto a doutrina. Vaidade é o pecado e a mentira. Entretanto, a vida reta é verdade, tem fim sublime, enquanto a intemperança termina em nada, que se corrompe ao sabor das concupiscências enganosas.

O Apóstolo quer, portanto, que não por dois ou três dias, mas perpetuamente exerçamos a virtude, e jamais nos despojemos desta veste. Não é tão inconveniente estar nu corporalmente quanto despojado da virtude. Àquele apenas os companheiros de serviço veem portar-se de modo inconveniente, a este o Senhor e os anjos. Se, portanto, vires um homem nu andando na praça, dize-me, não te aborrecerias? Se corres, despido da veste da virtude, o que diremos? Não vês o estado dos mendigos, que costumamos chamar de “Lótagas”, e que pena temos deles? No entanto, não os desculpamos. Não perdoamos se enquanto se dão aos jogos, rasgam as vestes. Como, então, Deus nos perdoará se estragarmos esta veste? Quando o diabo vê alguém despido da virtude, logo suja-lhe a face com fuligem, obscurece-a e pressiona-o grandemente. Despojemo-nos das riquezas a fim de não sermos privados da justiça. O manto das riquezas estraga esta veste; é um manto de espinhos. São espinhos, e quanto mais nos envolvermos, tanto mais nos descobrimos. A impureza arranca esta veste. É fogo e o fogo a consome. As riquezas são traças. A traça rói tudo e nem as vestes de seda poupa; assim acontece neste caso. Retiremos, portanto, tudo isso, a fim de sermos justos e revestirmos o homem novo. Nada de aparente, de corruptível. A virtude não é laboriosa, mas facilmente pratica boas ações. Não vês os (monges) que se acham nos montes? Eles deixam as casas, as mulheres, os filhos, a administração e longe do mundo, revestidos de saco sobre cinzas, cercam o pescoço de argolas e encerram-se em casinhas. Não lhes é suficiente, mas afligem-se com jejuns e contínua fome. Ora, se eu agora ordenasse tais coisas, não fugiríeis todos? Não diríeis ser um peso exagerado? Nada disso preceituo. Gostaria, mas não imponho como lei. E então? Utiliza os banhos, cuida do corpo, vai à praça, possui uma casa, sirvam-te escravos, come e bebe. Mas expulsa inteiramente a cobiça, que conduz ao pecado; o que for mais farto do que convém é pecado. A cobiça nada mais é senão pecado. E vê. O ânimo, mais incitado do que convém, arremessando-se amaldiçoa, ou procede injustamente, com o amor dos corpos, das riquezas, da glória etc. Não me digas que são aqueles homens que puderam assim agir; vários, muito mais fracos, ricos e delicados do que tu assumiram aquela vida dura e austera. E por que me refiro a homens? Convertiam-se certas jovens, antes dos vinte anos, que passavam todo o tempo nos aposentos e em casa, por natureza delicadas e mais delicadas ainda devido ao excesso de atenções. O dia inteiro não se ocupavam senão em ornar-se, cobrir-se de ouro, e gozar de todas as delícias; não faziam o próprio serviço, mas tinham muitas escravas que as assistiam. Usavam vestes mais macias que o próprio corpo, de linho leve e fino, e assiduamente aspiravam rosas e suaves odores. Elas, de repente, inflamadas por Cristo, despidas de toda suavidade e luxo, esquecidas da educação e da idade, quais valentes atletas, despojaram-se da moleza e entraram no meio dos combates. Parece que digo coisas incríveis, no entanto são reais. Ouvi dizer que estas finas jovens se converteram a uma vida tão austera que revestiam sobre a pele ásperos cilícios, sem sandálias presas àqueles delgados tornozelos. Dormiam em leitos de palha, ou antes, passavam em vigília a maior parte da noite e não utilizavam unções, nem coisa alguma das anteriores. A cabeça, antes tão enfeitada, fora descuidada, e os cabelos eram simplesmente amarrados sem artifício, de sorte que elas nada faziam de indecoroso. Uma refeição vespertina somente, e não constava de verdura, nem pão, e sim de farinha, fava, grão de bico, óleo e figos. Perpétuo o lanifício e os trabalhos muito mais pesados do que o das escravas. Quais? Tratam das doentes, carregam os leitos, lavam os pés. Muitas delas exercem o ofício de cozinheiras. Tanto pode Cristo inflamar, e assim a prontidão do ânimo supera a natureza. Nada disso exijo de vós, visto que quereis ser superado por mulheres.


Fazei ao menos o que não é pesado: Retende as mãos e os olhos impudicos. Dize-me. É pesado, difícil? Fazei o que é justo, a ninguém infligi injustiça. Não a inflija, nem o pobre, nem o rico, nem o que vive na praça, nem o mercenário. Pode a injustiça até alcançar os pobres. Não vedes quantas lutas suscitam, e tudo revolucionam? Contrai matrimônio, gera filhos; Paulo dava e enviava por escrito tais ordens. Intenso é o combate, elevado o rochedo, o cume está perto do céu; não podes alcançar o que é grande? Então, procura o que é menor, e deseja o grau inferior. Não podes distribuir as riquezas? Ao menos não roubes o alheio, nem pratiques a injustiça. Não podes jejuar? Ao menos não procures as delícias. Não podes deitar-te num leito de palha? Não adquiras leitos ornados de prata, mas usa cama e colchões, não destinados à ostentação, e sim ao repouso. Nem leitos de marfim. Sê comedido. Por que enches o navio de cargas inumeráveis? Se és moderado, nada temerás. Nem a inveja, nem os ladrões, nem os impostores. Não serias tão rico de dinheiro quanto repleto de preocupações. Não terias tanta abundância de posses quanto de angústias e perigos. “Ora, os que querem enriquecer caem em tentação e em muitos desejos perniciosos” (Tm 6,9). Suportam-no os que querem possuir muito. Não digo: Trata dos doentes; ordena ao menos ao escravo que o faça. Vês que não é pesado? Como o seria, quando as tenras jovens nos superam de longe? Envergonhemo-nos, suplico-vos. Não lhes cedemos a dianteira nas questões mundanas, nem nas guerras, nos combates; quanto às lutas espirituais, porém, fazem mais do que nós, arrebatam prêmios maiores, e voam mais alto do que as águias. Nós, porém, somos gralhas que sempre se revolvem em baixo, aspirando carne assada e fumaça. É, de fato, próprio das gralhas e dos cães lambões procurar os cozinheiros e garçons. Escuta como eram as mulheres da antiguidade. Foram grandes, mulheres grandes e admiráveis, tais como Sara, Rebeca, Raquel, Débora, Ana. Igualmente no tempo de Cristo existiam tais. Entretanto não avançavam além dos homens em parte alguma, mas ocupavam o segundo lugar. Agora, porém, ao contrário, as mulheres nos superam e deixam-nos na sombra. Que ridículo! Que vergonha! Tomamos o lugar da cabeça, e somos vencidos pelo corpo? Fomos colocados para governá-las; não só para governar, mas a fim de orientar na virtude. Pois quem governa, principalmente, deve orientar, vencer na virtude. Do contrário, se for superado, não é chefe. Viste como é grande a força da vinda de Cristo? Como elimina a maldição? Existem entre as mulheres mais virgens, mais castas, mais viúvas. A mulher não profere facilmente palavra obscena. Dize-me. Por que tu, então, as emites? Não me fales das mulheres deploráveis, empenhadas em se ornar, e que têm esta fraqueza. Mas nisso vós, homens, as venceis, porque vos deleitais neste e no próprio ornato. Não julgo que a mulher se enfeita tanto com seus ornamentos de ouro quanto o marido com os da mulher; não lhe apraz tanto o cinto de ouro quanto estar a mulher coberta de ouro. Por isso sois culpados de excitar a centelha e acender a chama. Aliás, não é tão grave o pecado feminino quanto o masculino. Tens o encargo de manter a ordem. Em toda parte queres o primeiro lugar; portanto, mostra em ti mesmo que neste ponto não és culpado daquele luxo. É mais adequado à mulher ornar-se do que ao homem. Se tu não o evitas, como ela evitará? Elas têm certa vanglória, mas isso é comum também aos homens. São iracundas, e isto é comum a ambos. No que elas os superam, não é comum a ambos, quer dizer, na gravidade, no fervor, na piedade, no amor a Cristo. Por que, perguntas, o Apóstolo lhe proibiu a cátedra de mestre (o santo se refere aos padres, instituídos para instruir)? É sinal de muita diferença entre elas e os homens, embora fossem insignes as que existiam então. Dize-me. Quando ensina Paulo, Pedro e aqueles santos deviam as mulheres avançar nessa questão? ... Disse estas coisas, não porque quisesse exaltá-las, mas para incutir-nos pudor, ensinar-nos e admoestar que devemos assumir o governo, não por preeminência, mas para prover, proteger e instituir vida virtuosa. O corpo terá condições convenientes se encontrar ótimo chefe. Oxalá mulheres e homens levem uma vida agradável a Deus, para sermos todos dignos naquele dia terrível de fruir do amor aos homens do Senhor e alcançarmos os bens prometidos, em Cristo Jesus nosso Senhor.

Trechos retirados do livro: Patrística, vol 27: São João Crisóstomo| Comentário as Cartas de São Paulo/1; Capítulo Homilias sobre a Carta aos Efésios, pgs: 373-514.