São Severo de Antioquia

Mor Severios, ou São Severo, Patriarca de Antioquia, não propôs nada de novo na doutrina cristã, ao contrário procurou defender o cristianismo verdadeiro alicerçado nos ensinamentos de Cristo e a nós transmitidos por seus discípulos e apóstolos.

É importante observar que aqueles que conviveram mais proximamente dos apóstolos, ou seja, os santos padres dos três primeiros séculos do cristianismo confirmaram a veracidade dos 27 livros que compõe o Novo Testamento, e, dos quais apenas dois não foram escritos pelos chamados apóstolos; são eles, os evangelhos de São Lucas e São Marcos, em verdade estes dois são discípulos dos apóstolos.

No concílio de 312 foi confirmada a validade destes 27 livros formando assim a base da doutrina cristã; são eles os quatro evangelhos, Mateus, Marcos, Lucas e João, as epístolas dos apóstolos, o livro de atos e o livro do apocalipse.

Não podemos esquecer também que São Severo era advogado por formação e consequentemente tornou-se um excelente defensor das teses que defendeu, lembrando que ele viveu a transição do quarto para o quinto século e baseia todas as suas teses na Bíblia Sagrada, isto é, nos 46 livros do Antigo Testamento mais os 27 livros do Novo Testamento.

Outro ponto a ponderar é o fato de seu avô também de nome Severo esteve presente no Concílio de Éfeso em 439 que condenou a tese nestoriana.

De São Severo, nossa Igreja Siríaca Ortodoxa de Antioquia, hoje, dispõe de 300 cartas e 125 homilias, e delas percebemos a sua dedicação ao estudo dos escritos dos santos padres que o antecederam como São Gregório Nazianzeno e Basileu.

A maioria destas cartas e homilias podem ser encontradas na Patrologia Orientalis, Tomus Décimus Quartus editado por E W Brooks.

Também, temos a publicação SEVERUS OF ANTIOCH: A COLLECTION OF LETTERS from numerous Syriac manuscripts (1915) Letters 62 - 118

Para exemplificar o trabalho de São Severo escolhi uma carta dirigida a Cesaréia, Hipatissa.

O título Hipatissa está em grego e equivaleria ao cargo de consulesa em latim, mas ao tempo do império romano de Oriente, ou seja, Império Bizantino, o título Hipatissa equivalia a “condessa da corte”.

Outra palavra que precisa ser explicada é “apocatástase”, um termo criado por Orígenes (+253) para designar a restauração final de todas as coisas em sua unidade absoluta com Deus. Representa a redenção e salvação de todos os seres inclusive os que habitam o inferno. Permite uma encarnação futura do Verbo ou Logos e questiona a divindade de Cristo não sendo fiel à doutrina cristã.

É interessante notar nesta carta que ao mesmo tempo em que defende as teses dos santos padres acaba provando indiretamente a falácia da tese de existência do purgatório que a Igreja Católica Romana defende, assim como, a teoria da reencarnação de outras seitas não cristãs, mas que alegam ser cristãs.

XCVIII – Da 5ª. Carta do 4° Livro de Mor Severios, destas depois do exílio endereçada a Cesaréia, Hipatissa que começa: “Quando li a carta do seu magnífico amor a Deus, não uma ou duas...

Mas, sobre a questão que vossa excelência magnífica que a mim enviaste por carta respondo que de minha parte nunca aceitei ou expressei concordância com aqueles que falam de uma “apocatástase”, e o fim do juízo envolvido em tormentas que nos ameaçam nos tempos futuros; e o homem que diz ter uma carta minha proclamando esta opinião é um manifesto mentiroso. Por isso elogio seu magnífico amor a Deus pedindo a exibição desta carta, carta esta alegada pelo homem que se colocou numa situação de falsidade dizendo ser de minha composição.

Estes que desejam afirmar tal parecer querem apenas alcançar seus desejos, como se antevendo, baseados em suposições, fazer uso dos argumentos que agradam os ouvintes dizendo que não viriam a ser indignos de Deus, e, afastados da Sua misericórdia, alegando que o homem pecador por 50 ou 100 anos neste mundo terá de suportar tormentas por intermináveis anos, esquecendo-se que as leis de Deus e aquelas que prevalecem entre os homens julgam ser adequadas para quitar os pecados de acordo com a intenção do pecador, e, podemos ouvir até de homens sábios que certas pessoas que cometeram ações más e atos não permitidos, “este homem merece morrer não uma vez, mas, muitas!” Mas, quando um homem ouve, como nós ouvimos, que o Deus que se encarnou e foi humanizado sem variação para nossa salvação, e que por esta razão desceu do céu e conversou conosco abertamente ameaçando fogo que não se extingue e o verme que não morre, lançando luz sobre isso, e que ele não merece, se é possível dizer que será condenado duplamente ao tormento sem fim? Se um homem viver 100 anos ou mais neste mundo presente e passou todo o seu tempo em ostentação, é certo que este homem, se lhe fosse permitido viver nesta mesma vida temporal sem fim, não cessaria seu eterno egoísmo e desejo. Como então este homem, este mesmo homem de acordo com a sua disposição sem injustamente atormentado eternamente? Mesmo o homem que introduziu uma “apocatástase” diz dos pecadores que serão atormentados por períodos muito longos para falar, e, depois serão purificados e admitidos à clemência e alcançarão a promessa abençoada. Mas, se esquecem que sua razão humana mostra a eles mesmos um Deus desvirtuado (injusto) nos seus julgamentos. Se um homem vive em pecado 50 ou 80 anos, mas sofre tormentos por muitas gerações, novamente no seu princípio demonstram que isto não é digno da misericórdia divina, isto é, estender o período de tormento além do tempo de vida em pecado. Se Deus concordar com as razões daqueles que assim pensam, o homem que pecou por 50 anos deveria sofrem tormento por 50 anos e assim não se estenderia por muitas gerações como eles afirmam. Mas, Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo também em suas palavras santas de pregação, quando separar os virtuosos dos pecadores disse: “estes seguirão para o tormento eterno e os virtuosos para a vida eterna”, e com relação a ambas as classes, que tanto para a primeira como para a segunda Ele falou exatamente da forma na igualdade sem distinção, usando a palavra “eterna” para ambos sem distinção.

Basileu, o grande entre os mestres da verdade mostra isso claramente no ensinamento por ele composto na forma de questão e resposta endereçada aos irmãos dos conventos e está na 219ª. questão, que está assim expressa:

Os irmãos dizem:

Se um vai ser castigado com vários vergões e outro com poucos como afirmar que não há fim para a sentença daqueles que são atormentados?

Basileu diz:

Pontos que são motivos de disputa e aparentam ser obscuros em vários lugares, nas Sagradas Escrituras são elucidadas por testemunhos claros em outros lugares. Portanto, desde que Nosso Senhor diz a um tempo: “estes seguirão para o tormento eterno” e em outra vez condena alguns “ao fogo eterno preparado para o diabo e seus anjos” e ainda em outra menção “o fogo do gihana” (fogo do inferno), usando outras palavras: “onde o seu verme não morre e o seu fogo não se extingue” e novamente dito antes pelo profeta sobre certos homens, “seu verme não morrerá e seu fogo não se extinguirá” enquanto estas expressões similares são constantemente usadas nas divinas escrituras, isto, também, foi trazido para certas artimanhas do diabo, de modo que os homens esquecendo estes decretos similares de Nosso Senhor, podem presumir o pecado sem restrição, convencendo a eles mesmos que não há um fim no julgamento.

Pois, se é possível ter um fim no juízo final seguramente haverá um fim na vida eterna. Mas, se não consentimos pensar isso com relação à vida, que plausibilidade há na nossa confirmação de existir um fim para o juízo eterno, seguramente haverá um fim para a vida eterna. Mas se não concordamos em pensar isso com relação à eternidade do juízo? Pois, a adição da palavra “eterna” está em ambos os casos “estes seguirão no eterno julgamento e os virtuosos para a vida eterna”. Admitindo-se tais premissas, sabemos que as palavras “será castigado com muitos vergões” e “será castigado com poucos” não definem um fim, mas, significam a diferença no tormento. Pois, se Deus é um juiz justo não só para os bons, mas, também para os maus, e compensará cada um segundo as suas obras é possível a um estar num fogo inextinguível queimando menos ou mais do que o outro, e o outro um verme que não morre, mas, ambos um pode doer mais do que o outro, cada qual segundo o que merecer, e, ainda outro no “gihana” onde há uma variedade de tormentas, e outro na escuridão externa, e há um lugar onde encontramos o homem chorando, e em outro local num ranger de dentes devido à dor. Mas, a escuridão externa significa que há em verdade uma escuridão íntima. E as palavras usadas nos Provérbios, “no fundo do Xiul” entendendo-se que há pessoas que não estão no fundo dele, porque seu tormento é menor. E isto está escrito também sobre as aflições do corpo. Pois há um homem com febre e dores e outro só febril, e, este último não é como o primeiro, e outro ainda, sem febre, mas com dor em algum membro, e, novamente um com mais e outro com menos. Mas, esta expressão “muito ou pouco” é aplicada por Nosso Senhor com o costume usual, assim como existem muitas outras frases similares. Pois, sabemos que esta forma de fala é frequentemente adotada com relação aos que sofrem de doença. Por exemplo, no caso de um homem estar apenas febril, ou apenas com dor no olho, dizemos pasmos: “Oh quanto ele sofreu! ” ou “quanta angústia sofreu! ” Então a expressão “será castigado com muitos” ou “com poucos vergões”, digo novamente que não é com relação à extensão do tempo ou sua redução, mas na diferença da tormenta.

Estas coisas este grande administrador e pastor de almas racionais, Basileu ensinou e registrou na imensa totalidade. E Gregório que veio a ser bispo dos naziazenos, em sua homilia em defesa do pensamento que os tormentos futuros não tem fim, assim ensina: “mas, para nós a salvação daquela abençoada alma imortal está em perigo, e que será sem morrer atormentada ou glorificada devido à sua fraqueza ou virtude, quão grande pensas deva ser a contestação? ” E João em sua 66ª. homilia no comentário sobre o Evangelho de Mateus constata pontos consoantes com estes: “Por todas estas razões paguemos os impostos primeiramente, pois, em verdade é muito fácil e a recompensa maior e há grande abundancia no lucro, e é pior a tortura se não compreendermos, e a tortura não tem fim”. E o mesmo em sua 79ª. exposição quando fala da Paixão referente ao reinado e à tormenta sem fim. E na 82ª. sobre o homem que se aproxima para a comunhão dos Santos Mistérios de forma desatenta e sem o cuidado que ele dá ensinando com as palavras seguintes: “aquele que se aproxima depois de ter pecado é pior que o endemoniado, pois aquele está possuído do demônio e não recebe castigo, mas o outro porque se aproxima sem merecer e é entregue à tormenta imortal”. E ao final do comentário sobre a epístola aos Efésios assim se expressou: “para um homem ser queimado e não consumido, ser perpetuamente roído por um verme em indestrutível destruição, como aconteceu ao abençoado Jó que estava em processo de destruição e não perecia por um bom tempo, mas, estava constantemente sofrendo e se consumindo enquanto raspava a matéria putrefata do seu corpo por um longo tempo. Algo similar ocorrerá na alma naquele tempo, quando os vermes cercarem e roerem não por dois anos, nem por dez e nem por cem, nem por miríades, mas, por anos sem fim, pois, seus vermes, diz Ele, não morrerão! ”. O sábio Cirilo também no 1° Livro dos Comentários sobre o Evangelho de João disse: “nós não devemos ser ingratos com Deus, mas, ao contrário agradecer porque por meio da RESSURREIÇÃO dos mortos Ele nos mostrou a tormenta que não passa”.

Aniss Ibrahim Sowmy – fevereiro, 2020